Obrigada e Adeus.


Tô há tanto tempo sem escrever.

As últimas letras que alinhei brotaram de minh’alma para outra alma que jamais chegou a lê-las. Foi devastador, senti-me vazia e enganada. O coração murchou, tal como flor que não recebe água ou luz do Sol. Ele era meu Sol. Eram dele meus primeiros pensamentos ao acordar e os últimos ao adormecer.

Ele me envolveu, virei peça de colecionador. Não me deixou ir quando pedi. Foi egoísta e insensível, fingia ser boia que me salvava durante uma tempestade em mar aberto, mas era corrente presa em âncora que me arrastou para as profundezas.

Adoeci em espírito. De amor, quase morro. Mas renasci.

Forte, vibrante, decidida, feliz.

Durante minha ida ao inferno conheci mais sobre mim do que durante os anos que imaginei viver num paraíso.

Recebi, mais uma vez, o chamado da Deusa. Pensei em um feitiço para esquecê-lo e retomei meus estudos sobre a Arte. Não precisei de tal feitiço pois quanto mais aprendia, mais me distanciava do pensamento que me prendia a ele. Ele, sem querer, me fez bruxa novamente.

Sou grata ao sofrimento que me moldou, pois hoje novamente posso me intitular “Filha da Deusa”.

As ervas, os cristais, velas, incensos e instrumentos mágicos são companheiros de jornada nessa história onde voltei a ser a personagem principal. 

A Lua Cheia ainda me fascina, mas nossa relação está muito mais forte e estreita. Também aprendi a amar igualmente todas as outras fases da Lua. Na minguante vou banindo o mal. Na nova, semeio aquilo que pretendo para um futuro maravilhoso. Na crescente, alimento meus sonhos, multiplico meus desejos. Na Cheia, torno-me ainda mais plena, sou pura energia e gratidão. Danço, canto e celebro.

Tal como a Lua, sou mulher de fases. Tão clichê, tão verdadeiro.

Esse texto é para agradecer a quem me levou ao Céu e ao Inferno, a quem me fez sorrir inúmeras vezes, mas que acabou por deixar meus olhos inchados, sobrecarregado pelas lágrimas. Talvez, sem ele, o chamado demorasse um pouco mais a ser entendido.


Gratidão, meu amor que nunca deveria ter  sido.



Eternizando Cadu

Há um ditado que diz que "Se um escritor se apaixonar por você, você nunca morrerá".


Eu te eternizo, Cadu, nessas letras.
Nessa página, nesse mundo virtualmente infinito.
Eu te registro para a posteridade, para que as gerações vindouras saibam que você existiu e saibam quem você foi e o quanto significou para mim.

Gosto muito de te ver, leãozinho
Caminhando sob o sol
Gosto muito de você, leãozinho

Conheci Cadu (Carlos Eduardo) no dia 08 de Junho de 2018. Havia feito um perfil "fake" em um site de paqueras, com o intuito de estudar o comportamento do público masculino em relação a diferentes "tipos" de mulheres. Desse modo, através de "Andreia", Cadu chegou pra nunca mais ir embora.

Para desentristecer, leãozinho
O meu coração tão só
Basta eu encontrar você no caminho

Como usava um perfil falso, "curti" perfis de homens com as quais não flertaria no "mundo real" (sendo sincera, não flertaria sequer virtualmente, pois acreditava que tais caras eram "muita areia pro meu caminhãozinho"). Então aconteceu o "Match" e, depois de algumas horas de conversa, senti que precisava dizer a verdade. Meu maior temor era que ele se sentisse enganado e me extirpasse de sua vida. Não foi o que houve e logo no dia seguinte nos conheceríamos.

Um filhote de leão, raio da manhã
Arrastando o meu olhar como um ímã
O meu coração é o sol pai de toda a cor
Quando ele lhe doura a pele ao léu

É extremamente fácil apaixonar-se por ele. Esquecê-lo é improvável, ouso dizer "impossível".

Gosto de te ver ao sol, leãozinho
De te ver entrar no mar
Tua pele, tua luz, tua juba

Cadu é um desses caras típicos da Zona Norte carioca. Possui as gírias e os trejeitos de quem flutua com naturalidade da "alta roda" aos guetos, com uma desenvoltura própria de quem nasceu sob o signo do Rei da Selva. Cadu reina em qualquer ambiente, seus olhos verdes - sempre atentos - são cobiçadas esmeraldas, valiosos e inacessíveis.

Gosto de ficar ao sol, leãozinho
De molhar minha juba
De estar perto de você e entrar numa

Cadu, em cuja pele bronzeada se estampam um sem número de tatuagens com os mais variados significados e tamanhos, é dono de densa barba, meio grisalha, meio loira, que emoldura seu exótico e belo rosto com perfeição, coexistindo em harmonia com fios de cabelo que ainda carregam um pouco do exuberante dourado de outrora. Os anos parecem passar mais lentamente para esse gracioso filho de Oxum, que mantém seu ímpeto e vigor no auge de seus quarenta e dois anos.

Gosto muito de te ver, leãozinho
Caminhando sob o sol
Gosto muito de você, leãozinho

É incrível como alguém pode ser tão viril e tão sensível. Cadu é desses que pára e sente o cheiro de uma flor. Cadu é um diamante mas ainda não consigo dizer se em estado bruto ou já dilapidado. Ele é inspiração, incentivo e apoio. Mas também é lágrima. Cadu é amor e é ódio. Cadu é o que existe de mais encantador.

Cadu e eu, hoje, somos meros amigos. O amor, em si, nunca acaba, mas ele se transforma e transforma vidas.

"Our old friend fear, and you, and me..."


São 17 horas do dia 17 de Outubro de 2018 e Cadu acaba de ser eternizado na infinitude da internet.


Sobre Verdades

Meu amigo entre a fantasia e a realidade,
A distância é de um aperto de mão.
Da mentira para chegar-se à verdade,
A distância é a dor da desilusão.

Quando comento poesias, faço-o com a intenção,
De atingir a fantasia do seu criador,
Daquele que desnuda sua alma com emoção,
Cantando seu amor ou lamentando sua dor

Tudo tem de ter um real propósito,
Não há atitude sem que haja uma razão.
Onde houver dor ou espanto, se ouvirá um grito,
A existência perderia o encanto sem a ilusão.

Se eu disser, te amo! Acreditarás ou não!
E se gritar que te odeio, terá de haver uma explicação!
Atores quantas vezes dizem isso em encenação,
No que disser tem a verdade de trabalho, o resto falação.

Eu sei separar o joio do trigo e aproveitar a oportunidade,
De lançar uma semente de fraternidade que não faz mal a ninguém.
Em terreno fértil ela germinará e trará certamente felicidade,
E com certeza não fará mal algum, a quem necessidade não tem.


O Moço da Bicicleta Preta

Debruçada sobre o muro de uma antiga casa em um bairro distante da cidade ela aguardava pela hora em que o moço passaria em sua velha bicicleta preta de rodas coloridas. Ele nunca observou sua presença, mesmo assim ela insistia em estar ali, no cair da noite, na esperança de um dia ser notada. Sobre ele, sabia quase tudo, seu nome, a rua onde morava, a idade aproximada e o nome dos pais, antigos moradores da localidade.

Quando deitada em sua cama, fechava os olhos e criava situações diversas em sua cabeça, uns dias, imaginava que seus olhos se cruzariam exatamente no momento em que os últimos raios de Sol iluminassem seus olhos, ressaltando-lhe o castanho dos olhos e o vermelho da boca. N'outros, imaginava que talvez ele, distraído, tombasse de seu meio de transporte e ela partiria, então, em seu socorro, sendo arrebatado por seu sorriso largo e seu coração cuidadoso.

Os dias passavam e a situação permanecia a mesma. Ela esperava, ele passava, nem sequer um olhar. Ela, triste, voltava a seu mundo de sonhos e devaneios, ouvindo canções melancólicas e planejando tomar uma atitude que nunca se concretizava. Os dias se transformavam em semanas, que viravam meses.

Era uma tarde de fevereiro quando aconteceu. Havia feito um calor quase insuportável durante o dia e nuvens carregadas se aproximavam, na distração de sua rotina de trabalho e estudos, não notara que a geladeira nada mais tinha além de duas cebolas, uma garrafa d'água pela metade e uma panela com um pouco de arroz que havia jantado no dia anterior.

Olhou para o relógio e lembrou-se do horário em que seu amado passaria, já próximo. Dessa vez não havia escolha, ou iria ao mercado ou ficaria com fome, já que tratava-se de uma terça-feira e não haveria nenhum comércio onde pudesse pedir um lanche nas proximidades. Olhou o céu carregado e, enchendo-se de coragem, rumou ao estabelecimento onde compraria o jantar e provisões para os próximos dias.

Durante a caminhada, pensou que não lembrava de como as coisas eram distantes naquela localidade. Sentiu a brisa inicial tornar-se em vento daquele que joga terra nos olhos e, em poucos minutos, transformar-se em violento vendaval. No céu, as nuvens espessas transformavam o dia em noite e pingos grossos logo começaram a molhar seu rosto.

Esqueceu a fome e iniciou seu retorno até seu lar, onde estaria segura. Começou a caminhar cada vez mais rápido, sob uma chuva torrencial e com o ruído assustador de raios e trovões que iluminavam o céu. Quando deu por si, corria.

A casa era bem distante, ainda faltavam três quarteirões para a segurança de seu teto. Foi quando aconteceu. 

O moço bonito da bicicleta preta pôs-se lado a lado com aquela moça, totalmente encharcada, falando-lhe nervosamente - um pouco constrangido, também - "Oi, sobe, te levo em casa". Os segundos que demoraram até que ela lhe respondesse pareciam uma eternidade. A voz sumiu de sua garganta. Apenas balbuciou algo que seria um "Obrigada".

Subiu na velha bicicleta preta e foram, apressados, em direção à sua casa. 

Lá chegando, desceu ainda atônita e sem saber o que dizer. Em um rompante apenas disse "Está chovendo muito, entre até que passe". Ele, um tanto tímido, sorriu quase imperceptivelmente e cedeu.

O vendaval, associado à chuva, causaram uma queda de energia e a residência encontrava-se sem luz, transformando a atmosfera um tanto quanto desconfortável, mas extremamente convidativa.

Ela dirigiu-se ao banheiro, onde tirou as roupas molhadas. Quando chegou à sala, trajava um belo vestido coral, com estampa de pequenas flores amarelas. Secava os cabelos com uma toalha branca e exalava um aroma adocicado. Ele permanecia de pé, temendo molhar o sofá bege. Ela ofereceu-lhe uma toalha e ele aceitou, permanentemente constrangido.

Lembrou de roupas que o irmão esquecera após a última visita, ofereceu-as ao seu salvador das tempestades que, como encontrava-se molhado e coberto de lama do percurso que fizera antes de encontrá-la, aceitou de bom grado., dirigindo-se ao banheiro para trocar-se.

Quando retornou, já limpo e seco, encontrou a sala iluminada por velas aromáticas e uma semi-escuridão, só interrompida pela luz dos raios da tempestade que ainda caia violentamente la fora.

Sentaram um tanto quanto distantes um do outro, não havia muito assunto, apenas olhares que se encontravam nervosos. Ela agradecia a carona enquanto ele dizia que não havia feito mais que a obrigação e agradecia pela roupa seca: "Amanhã eu devolvo, sem falta".

Houve um momento de silêncio entre os dois, interrompido por um "Sempre a vejo debruçada sobre o muro, há tempos tinha vontade de parar, cumprimentar, mas sei que você provavelmente espera pelo seu namorado". 

O coração da moça disparou. Não sabia o que pensar. Pensara durante meses que seu amado jamais a havia notado. "Não tenho namorado", respondeu. Ele a olhou e pensou em falar mais alguma coisa, que seria totalmente desnecessária, pois a expressão de seu rosto deixava bem claro o que se passava dentro de sua cabeça naquele momento.

Ela, num ímpeto de coragem, emendou "Fico ali todos os dias apenas pra ver você passar". 

Ele levantou-se da poltrona onde estava sentado, mas não sabia se caminhava até a direção da moça ou se sentava novamente. Era um moço inteligente, bonito e bem articulado, mas as cicatrizes da vida e a dureza do cotidiano o tinham tornado um tanto quanto inseguro.

Ela também se levantou do velho sofá bege, caminhando em sua direção. Quando estavam a poucos centímetros um do outro, ela pode finalmente olhar mais cuidadosamente para seu rosto, coisa que não fizera durante o tempo que estava na bicicleta, pois permaneceu olhando em direção ao chão, já que as gotas fortes machucavam-lhe a tez.

Notou os fios grisalhos em meio à barba negra, os olhos castanhos, quase negros, amendoados. A calvície lhe tinha roubado muitos dos fios de cabelo, mas lhe presentearam com uma beleza pouco vista em outros homens. Não havia beleza igual a do moço da bicicleta preta.

Houve total sincronia quando ambos procuraram os lábios um do outro. O céu, em festa, comemorava o encontro daquelas duas almas que se procuravam há tempos, num festival de sons e luzes. 

Acordaram abraçados no dia seguinte, ali, no tapete daquela sala, num bairro afastado dos subúrbios da cidade.


O Quarto Vermelho

No escuro do quarto ela espera nua. Faz frio, mas seu corpo está quente, mais quente que o normal, num estado quase febril. Os olhos semicerrados acompanham o movimento dos dedos entre as pernas... os lábios balbuciam um nome qualquer, num chamado quase inaudível. Ele abre a porta e a encara, fixa seus olhos em seu sexo que escorre de desejo, ele sabe que cada gota desse mel lhe pertence.

Lentamente se aproxima pela lateral da cama, já se despindo. Ajoelhado na cama, a faz provar sua carne, sua rigidez. Ela sente seu gosto em sua língua, sorvendo cada gota de seu prazer. Ele geme baixo, ainda tímido, procurando o espaço entre as pernas dela com suas mãos.

Ela está, agora, engolindo seu sexo com vigor. Move a cabeça ritmadamente, olhando em seus olhos, esperando sua mão de contra o rosto. Ele entende o recado e a esbofeteia, chama-a puta, diz que é seu homem. Ela apenas concorda com a cabeça e continua a sugá-lo, submissa.

Sentindo aproximar-se o gozo ele, gentil, interrompe o momento profano a beija os lábios. Os dedos ainda em seu sexo, cada vez mais protuberante e encharcado. Logo vai descendo, sugando-lhe os seios, mordendo os mamilos, beijando seu ventre e, finalmente, pousando sua língua entre as pernas.
 Entre lambidas e chupadas, ela se descontrola. Tenta empurrar sua cabeça para longe, ele não deixa. Segurando firme suas mãos, segue a possuindo.

Depois de arrancar-lhe gritos e gemidos, sobe novamente de encontro a seu rosto, beija a boca, coloca seu sexo entre seus seios e a ordena que lhe dê prazer. Ela obedece e faz o que ele pediu, encarando-o com uma malícia quase demoníaca. Se houvesse anjos no quarto vermelho, certamente tapariam os olhos para não testemunharem tal olhar.

Mais uma bofetada, agora ele a penetra com força, sentindo sua temperatura e textura internas. Ela o xinga e agora é sua mão que o esbofeteia, na loucura do orgasmo que se aproxima. Ele pára e a faz implorar por mais. Ela implora e fica de quatro, se ofereço feito cadela no cio. Ele a monta como um garanhão. Introduz tudo de uma única vez. Há dor, mas não há um grito, pois ele, a essa altura, já tapou sua boca com uma das mãos, enquanto segura-lhe os cabelos com a outra.

Estocada após estocada, estão cada vez mais exaurido, suor de ambos os corpos se misturam, enquanto ele a segura pela cintura e puxa cada vez mais violentamente seu corpo para junto do dele. Os dedos dela movem-se vertiginosamente em seu sexo, enquanto diz coisas inconfessáveis. Ela é sua puta, sua vadia, sua cadela. Ele é seu homem, seu macho, seu dominador.

O ritmo aumenta conforme o orgasmo se aproxima. Ela goza. Seus músculos apertam seu membro que lateja de prazer, pronto pra esparramar seu líquido quente  Ela se desencaixa e fica de frente, para receber cada gota em seu busto, o que logo acontece. Seu gozo escorre pelos seios, especialmente nos mamilos. Há um pouco também nos lábios, que ela trata logo de sorver.


Findado o balé, deitam-se lado a lado, exaustos. Se olham e se beijam. Logo, ecoa no quarto uma gargalhada e ambos adormecem, já pensando no momento em que acordarão e iniciarão o segundo ato, afinal, o “The Show Must Go On”;

O "x" da Questão.

Nossas vidas se resumem ao x.

Às vezes eles indicam locais onde devemos assinar, assentindo com regras, termos e imposições, tornando nosso existir um imenso contrato, onde vendemos nossas almas em troco de coisas ou situações que nos levam a prazeres passageiros e superficiais. Seja qual for a linha que assinemos, sempre significará um invólucro: um número na identidade, uma nova dívida, um compromisso que nem sempre estamos seguros de querermos assumir.

Às vezes o X somos nós mesmos. Tornamo-nos fotos e descrições em sites e aplicativos, onde tratam-nos como frutas em uma grande bancada. Tentamos mostrar o quão belos, inteligentes e interessantes somos. Pessoas que jamais vimos e jamais veremos nos apalpam virtualmente e, se não se apetecem pelo que aparentamos, basta apertar o X e já não existimos mais.

Se somos escolhidos, precisamos ser provados. Deixamo-nos morder diariamente, mas passamos a maior parte do tempo na gaveta sentimental da geladeira do outro, torcendo pela próxima mordida e para que ainda sejamos apetecíveis quando o outro lembrar que estamos ali aguardando seu retorno.

A tecnologia nos fez ícones redondos que insistem em aparecer no canto superior da tela de celulares cada vez mais caros e modernos, que - e agora vou ser bem clichê - afastam o que estão próximos e aproximam os que estão distantes.

A vida tornou-se um eterno esperar para que nosso ícone não seja arrastado para o "X" na parte inferior dos celulares, ou para que não sejamos mais uma visualização ignorada, uma conversa arquivada. Nos tornamos desinteressantes à medida que novos ícones vão se apresentando, que novos desafios vão surgindo, porque num mundo regido pela acumulação, quanto mais, melhor. Somos peças de coleções. No início temos até alguma importância para quem nos adquire, mas tão logo deixamos de ser novidade, resta-nos a poeira das prateleiras frias do esquecimento.

Todos nós já fomos arrastados para o X em alguma altura de nossas existências e seria hipocrisia não admitir que não arrastamos outras pessoas para o mesmo caminho.

Mas a vida não tem - nem pode - que se reduzir a isso. Há muita coisa bonita por ai, num local que nos desacostumamos a visitar, chamado "mundo real". Sim, queridos leitores, ele existe. tem cheiro e cores de uma beleza indescritível. Lá, podemos deixar a chuva molhar nossas peles e cabelos, onde podemos deitar num gramado aleatório e observar o movimento dos astros no céu e, pasmem, onde podemos até encontrar alguém que esteja disposto a fazer parte do nosso mundo e nos levar para seu mundo.

Lembrei-me, agora, de uma historia que lia quando criança, um livrinho de poucas páginas, que trazia consigo um disco amarelo. Nele, uma sementinha vivia sua vida em sua casa sob o solo. Era uma sementinha muito medrosa que sempre era visitada pela Chuva e pelo Sol, mas nunca abria a porta, com medo de um eventual estrago que os dois pudessem causar em sua vida. Ficava ali, trancada em seu mundo frio e escuro, sem conhecer nada além dos limites de sua parede. Até que, em uma manhã qualquer, a sementinha encheu-se de coragem e abriu a porta para a visita do Sol e da Chuva, que lhe permitiram germinar e lançar-se acima da terra que a recobria, tornando-se um belo e frondoso Girassol.

Incrível como uma historinha boba para crianças possa representar tão bem como muitos de nós nos sentimos nesses tempos líquidos, não é verdade?

Então, queridos leitores, conselho de alguém que já foi semente: Abram a porta. Deixem entrar o sol e a Chuva. Pode ser que vocês se sintam estranhos e incomodados no início. Pode ser que as mudanças doam. Pode ser que o florescer seja difícil, mas ele virá. Mas não descuidem de adubar-se constantemente com boas companhias, música, arte, livros e o que mais lhes fizer felizes.

O "X" sempre existirá, sempre correremos o risco de sermos arrastados em sua direção, mas a vida não se resume a isso. A questão é: Há todo um alfabeto a ser vivido, experimentado e absorvido. Se você se tornou uma conversa arquivada, não dê trela, há mai em você do que frases, vídeos e fotos enviados virtualmente para quem quer que seja, você é um infinito a ser explorado, apreciado e desejado. 





Devaneios



Mãos que me tocam e me rasgam a pele feito navalha. Suspiro, atônita, quase não reajo. Só penso na boca percorrendo meu corpo, nos olhos negros me fitando na penumbra de um quarto qualquer de motel. Imagino nossos olhares fixos um no outro enquanto desliza dentro de mim e me perco em mil devaneios, quero mais e quero tudo.

Quando chega sorrateiro e já me invadindo, mal sinto teu cheiro e já me entrego, nem tento mais disfarçar... apenas vou deixando acontecer. Mais tarde, quando sozinha, mergulho num oceano de prazeres inconfessáveis enquanto imagino tua respiração ofegante junto a meus ouvidos. E no ápice te chamo, te grito e me contorço.

Me inflama por dentro, me bebe, me tira do sério e sai pela porta com teu riso sacana e tua voz rouca Já não lembro como se respira, a perna já não tem firmeza, a visão fica turva. Sinto o ar faltar. Estaria morrendo? Provavelmente não! Mata-me de desejo apenas. Ah, se de desejo se morresse, não haveria mais carne sobre meus ossos.


Vem sem demora, me toma, me sorve, me tira dessa dimensão e depois vai... Volta pro teu mundo, volta pros teus. Nossas vidas são como universos paralelos que jamais se encontrarão fora dos momentos de clandestinidade entre lençóis de quartos impessoais.  Vai, mas volta. Visita meu corpo sempre que quiseres na sordidez dos momentos proibidos. Seguimos assim, subvertendo regras, quebrando paradigmas e nos inebriando de prazeres secretos.




Quando Eu Te Encontrar.



Quando eu te encontrar, não fale nada. Deixe que o silêncio fale por nós dois. Receba meu sorriso como um convite ao beijo e o beijo  como um convite ao sexo.

Quando eu te encontrar, faça de conta que somos íntimos, amigos de infância mesmo, não dê espaço para hipocrisia, moralismo ou qualquer forma de preconceito. Me enxergue com os mesmos olhos que eu te enxergo: de carinho, de respeito, de cumplicidade. Porque eu consigo enxergar as pessoas muito além do que a visão alcança e com você não foi diferente. 

Quando eu te encontrar, segure na minha mão e vá onde eu te levar. Prometo que vou surpreender, prometo que você vai se viciar em mim. Melhor: você vai se habituar em mim, porque serão muitos os momentos em que não estaremos juntos, mas será como se estivéssemos, porque nossos pensamentos estarão sempre em perfeita sintonia. O universo nos conecta muito mais do que você possa imaginar.

Quando eu te encontrar, saiba que já sussurrei seu nome inúmeras vezes, entre travesseiros e lençóis, quando preenchia de prazer a minha solidão, embora pareça estar sempre acompanhada.

Quando eu te encontrar, me rasgue, me morda, me chupe e me cheire. Mas não me marque além das marcas superficiais que porventura apareçam em minha pele. Não me deixe amá-lo, não desperte em mim nenhum sentimento que não possa retribuir. Me faça gritar seu nome apenas em meio ao prazer, jamais balbuciá-lo em meio a lágrimas.


Quando eu te encontrar, sejamos apenas carne. Assim, nossa comunhão espiritual será mantida pelo sagrado vínculo da amizade. 

A Arraia.



Nadando em um mar de alvidez, vai a arraia. Nenhum mal é capaz de toca-la ou penetrar seu universo particular. Ela é toda poesia em seus movimentos, majestosa e altiva. Qualquer lugar é seu oceano, é dona de tudo e de todos que ousam passar em seu caminho.
Misterioso animal levado por seus instintos, belo e mortal, emoldurada no castanho dos meus olhos ela apenas passa de um lado para o outro, sem notar minha presença. Para conseguir observa-la, fico totalmente submersa em água salgada, ainda em dúvida se estou no mar ou em uma lagoa formada pelas lágrimas que chorei noite após noite. Sem fôlego, já sentindo a vida saindo de mim, permaneço petrificada, olhando o bicho que passa indiferente à minha presença.
Em vão, tento estender as mãos e tocá-la. Quanto mais me aproximo, mais ela se distancia. Foge de mim rápida e voraz, ferindo-me sem ao menos ter lançado seu ferrão. Mata-me. Ata-me. Liberta-me.
Tomada pela falta de oxigênio, desfaleço. Os olhos vidrados, voltados para a luz que passa através da água que me cobre. Sem esperança afundo como se houvesse uma âncora amarrada aos meus pés. A escuridão vem, os sons somem aos poucos. A arraia, como que sentindo o que me aguarda, aproxima-se e apenas me observa. Vou descendo até tocar o fundo, imóvel. Vencida.
Acordo envolta em suor, com a respiração ofegante. Busco o ar que achava me faltar. O quarto tomado pela luz primaveril me diz que a vida continua. Surpresa e aliviada percebo que tudo não passou de um sonho. Tudo não passou de um sonho.